"O uso da evidência como base para as auditorias de enfermagem sustenta a atuação técnica e científica do enfermeiro auditor."

O Enfermeiro Auditor inserido na gestao em Saude: realidade ou mito?

A despeito de sua origem no setor financeiro, a auditoria se estendeu e foi adaptada a outros ramos de atividades como um dos mecanismos mais eficazes para o aprimoramento de um sistema. Numa perspectiva histórica, verifica-se que na área da saúde os auditores tiveram como escopo de trabalho desde os primórdios a aferição da qualidade da assistência de saúde dada aos pacientes, vide a proposta conceitual de Lambeck em 1956.

Donabedian (1982) esclarece que a necessidade da auditoria baseia-se na garantia da qualidade do cuidado e possibilita realizar avaliações contínuas e periódicas das atividades profissionais.

A auditoria em enfermagem, a exemplo das outras profissões do setor saúde teve início com o objetivo de verificar a qualidade do cuidado prestado, e afetada pelas mudanças político econômicas nos serviços de saúde, passou a atuar na análise de contas.

A estabilidade da moeda nacional na década de 90 obrigou aos atores do sistema de saúde encontrar formas alternativas de ganho, que não investir no mercado financeiro. As regulamentações que se seguiram ao advento da Lei 9656 de 1998, estabeleceram regras para as relações entre operadoras, prestadores e usuários, que trouxeram à tona a falta de profissionalização dos serviços de saúde que atuavam no mercado e estabeleceram a necessidade de aperfeiçoar a aplicação dos recursos para financiamento das ações em saúde.

Dessa forma a auditoria começou a se firmar como especialidade na área de saúde e concentrou sua atuação nas questões contábeis e de conformidade, e teve na enfermagem uma grande força motriz, uma vez que os maiores consumidores intermediários de insumos na cadeia de saúde fazem parte desse grupo e que a análise de enfermagem corresponde ainda a aproximadamente 80% do valor das contas.

A despeito de toda a evolução que se verificou na auditoria de enfermagem, com o aumento dos profissionais na área, com a exigência de especialização pelos tomadores desses serviços, com a necessidade de aprimoramento profissional acerca dos recursos tecnológicos disponíveis em saúde, e apesar de todo o arcabouço teórico sobre a importância da auditoria como ferramenta de gestão, ainda assim os enfermeiros auditores continuam tendo num grande número de instituições suas atividades restritas à análise de contas, no seu modelo mais rudimentar, e que consome praticamente todo o seu tempo.

A verificação de prontuários com foco exclusivo na constatação do cuidado e na contagem dos recursos utilizados, restringe e empobrece a atuação do enfermeiro auditor. Não se trata de abandonar a auditoria contábil, mas sim de ampliar a análise, utilizando–se da auditoria de contas como ponto de partida para a construção de indicadores que permitam ao profissional avaliar a pertinência e a relevância da utilização dos recursos e atuar como assessor técnico da gestão fornecendo informações para balizar a assistência e subsidiar os gestores na tomada de ações, contribuindo assim na redefinição de objetivos e com o aprimoramento dos processos.

Nesse sentido propõe-se uma reflexão acerca da importância da busca de um modelo integrativo de auditoria em enfermagem, que contemple além da análise da conformidade (que se baseia na constatação do cuidado prestado e dos recursos utilizados), a auditoria operacional (cujos critérios baseiam-se na utilização adequada dos recursos) e a auditoria de qualidade (que encerra a função de catalisador do auditor em saúde em linha de assessoria à gestão).

A Resolução n º 266 de 05 de outubro de 2001, do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), estabelece que o enfermeiro, enquanto auditor no exercício de suas atividades deve: organizar, dirigir, planejar, coordenar e avaliar, prestar consultoria, auditoria e emissão de parecer sobre os serviços de enfermagem; mantendo visão holística, com foco na qualidade da gestão, qualidade da assistência e quântico – econômico – financeira, objetivando sempre o bem estar do ser humano, ou seja, há amparo legal para a ampliação dos horizontes na auditoria de enfermagem.

O uso da evidência como base para as auditorias de enfermagem sustenta a atuação técnica e científica do enfermeiro auditor e alicerça a auditoria enquanto especialidade na enfermagem, dando-lhe credibilidade entre as áreas de conhecimento no contexto da saúde.

A prática baseada em evidências é definida por Stetler ET al. (1998) como uma abordagem para a enfermagem que utiliza os resultados de pesquisa, o consenso entre especialistas conhecidos e a experiência clínica confirmada como bases para a prática clínica, evitando-se as condutas com base em opiniões pessoais, subjetivas ou sujeitas a outros interesses que possam comprometer o processo como um todo.

A qualificação das ações em enfermagem passa, sem sombra de dúvidas, pela utilização das melhores referências científicas do cuidar. O que se observa é que no Brasil apesar dos avanços obtidos na melhoria da formação profissional, no que diz respeito à enfermagem, a base da prática ainda está ancorada em rituais, tradições e conhecimento comum.

Como acontece em todas as áreas de atuação, é necessário que os padrões técnicos que objetivam qualificação na condução dos trabalhos de auditoria e garantia de atuação técnica consistente, assegurem a todos aqueles que dependem do parecer do auditor, a observação de uma série de requisitos considerados indispensáveis para o trabalho concretizado.

Para que os objetivos de qualidade na auditoria sejam atingidos, sem perder de vista as questões de cunho financeiro envolvidas no processo da assistência, é fundamental que o enfermeiro auditor abandone as condutas não fundamentadas e os “achismos” que se traduzem numa prática bastante comum na auditoria de enfermagem. É necessária a compreensão de que as discussões entre auditores e as definições de condutas precisam se dar num âmbito estritamente técnico, e que independentemente da instituição que o profissional represente e excluindo-se as questões de ordem contratual, os parâmetros técnicos científicos e legais que devem referenciar as análises são os mesmos.

Em função de analisar questões relativas a cuidados prestados em saúde sob uma ótica que contempla além da técnica, as dimensões sociopolítica, comunicacional, de relações interpessoais e financeiras, o conceito de auditoria de enfermagem deve estar ancorado numa perspectiva crítica.

Sob essa perspectiva, a auditoria de enfermagem necessita repensar e redefinir seus caminhos, assegurando seu papel e seu compromisso com a qualidade na prestação de assistência à saúde. Há que se avaliar ainda como fornecer ao enfermeiro auditor as ferramentas que permitam o desenvolvimento das competências necessárias a um desempenho mais abrangente, com foco técnico e com base científica.

Diretamente ligada ao desempenho da função de auditor está a competência de desenvolver raciocínios lógicos, críticos e analíticos, que encerra a eficácia no estabelecimento de relações de causa e efeito, adotando estratégias que visem à identificação de problemas e possíveis soluções. O enfermeiro-auditor precisa desenvolver uma visão sistêmica a respeito da auditoria e das questões a ela relacionadas, tendo em vista o contexto sociopolítico e econômico que envolve o assunto e preparar-se continuamente para as rápidas transformações que ocorrem nesse mercado de trabalho.

É necessário que as organizações voltadas ao segmento auditoria em saúde, sobretudo aquelas que congregam os enfermeiros-auditores, estruturem-se no sentido de definir claramente um planejamento estratégico e estabelecer as competências institucionais, que servirão como base para a condução dos profissionais dessa área (Fávero, 2006).

As instituições de ensino, responsáveis pela formação e pelo aprimoramento profissional precisam acompanhar esse movimento buscando uma reorganização curricular que estimule o aluno a questionar e investigar o contexto da prática.

Torna-se ainda fundamental destacar o posicionamento do enfermeiro auditor, que precisa basear o exercício de suas funções no desenvolvimento de competências técnico-científicas e emocionais, com absoluto respeito às normas éticas, com integridade e respeitabilidade no curso de suas atividades.

Finalmente, cabe ressaltar que o movimento de inserção do enfermeiro auditor na gestão vem se concretizando em algumas instituições de saúde e que é necessária a difusão desse modelo de auditoria de enfermagem, em especial através dos cursos de formação de enfermeiros auditores, de modo que os profissionais da auditoria de enfermagem reflitam no seu discurso e nas suas ações a busca pela excelência e o entendimento do seu papel na assessoria à gestão.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

BRASIL. RESOLUÇÃO COFEN Nº. 266/2001, de 05 de outubro de 2001. Aprova atividades de Enfermeiro Auditor

DONABEDIAN, A.; WHEELER, H. R. C.; WYSZE-WIANSKI, L Quality, Cost, and Health: An Integrative Model. Med. Care 20(10): 1975-92, 1982.

FÁVERO, T. R. Enfermeiro Auditor: Competências Necessárias para a Auditoria de Contas Hospitalares . São Paulo, 2006, Monografia. Centro Universitário São Camilo. MBA- Gestão em Planos de Saúde. 

REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei Federal n .9656, de 04 de junho de 1998,que dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde.

STETLER, C.B. et al., Evidence-based practice and the role of nursing leadership. JONA, v. 28, n. 7-8, p. 45-53, 1998.


TANIA REGINA FAVERO

Enfermeira com Licenciatura em Enfermagem pela UNICAMP com MBA em Gestão de Planos de Saúde

Responsável pelo serviço de auditoria interna de enfermagem do Setor de Convênios do Instituto Central e do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Atuação em auditoria desde 1998 na coordenação de equipes de enfermeiros auditores

Consultora Técnica com atuação na área de planejamento e desenvolvimento - suporte a faturamento, autorizações, credenciamento e auditoria

Diretora da Consensum Consultoria e Auditoria em Saúde.
 

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